sábado, 18 de outubro de 2008

Quais conteúdos são fáceis e quais são difíceis de ensinar?

Essa pergunta surgiu no fórum de Física do Portal do Professor (MEC) e eu vou postar aqui a minha resposta (porque gostei da minha resposta e acho que vale a pena refletir um pouco sobre ela, mesmo que seja para discordar). Então, lá vai...


Perguntinha capciosa essa. piscando

Na verdade eu acho que todos os conteúdos são igualmente "fáceis" ou "difíceis" e o que os torna "mais fáceis" ou "mais difíceis" são as circunstâncias em que são ensinados. Vou tentar resumir o que penso em uma espécie de "receitinha de bolo" onde cada ingrediente que faltar significa um pouquinho a mais de dificuldade para "ensinar" qualquer conteúdo. A receita é minha, por isso quem não gostar que faça seu próprio bolo ou me ajude a melhorar o meu, combinado?

Receita para um conteúdo ser fácil:
  1. existência de pré-requisitos: sejam matemáticos, físicos ou mesmo linguísticos (porque aluno que não compreende a própria língua dificilmente lê textos ou compreende todas as expressões usadas pelo professor). Ahá! Isso significa que antes de se meter a ensinar alguma coisa é preciso fazer uma "diagnose" do aluno para saber o que ele já sabe; as vezes uma boa conversa sobre o assunto já resolve e... Sim, isso mesmo, é preciso fornecer ao aluno a base mínima para que ele compreenda aquilo que você vai ensinar agora;
  2. aula bem preparada: sim, planeje a aula! Aula bem preparada não é aquela em que o professor "sabe o conteúdo", mas sim aquela em que ele "planeja como ensinar o conteúdo". Ah, não se esqueça, você pode ser bem melhor do que o livro didático que usa, certo? Então capriche e planeje cada detalhe da aula;
  3. estratégias inovadoras (na verdade não precisam ser "inovadoras", mas tem que ser "boas estratégias"): use o laboratório, a sala de informática, a biblioteca, a sala de vídeo e até mesmo a cozinha da escola se precisar, mas não tente imaginar que apenas lousa e giz, aliadas ao seu imenso talento de professor, tornarão suas aulas interessantes;
  4. didática apropriada: coisas como "contextualização", "transversalidade", "inter e intradisciplinaridade" não são palavrinhas para decorar textos de pedagogos malucos, elas realmente significam que é preciso um bom método, uma sequencialidade, um contexto apropriado, ênfases e redundâncias de vez em quando e objetividade quase sempre. Enfim, não se deve matar as aulas de didática na faculdade e nem queimar os livros dos pedagogos;
  5. interatividade: isso não é coisa só de jogos de computador, interatividade significa um aluno que interage, que "se vê quase obrigado a ficar curioso e perguntar, tão desconcertante é a maneira como você lhe apresenta algo que o torna curioso sobre aquele assunto"; perguntar aos alunos é bom, mas estimulá-los a fazerem suas próprias perguntas (e não apenas sugerir a eles que se estimulem) é melhor ainda;
  6. bom dimensionamento temporal: aulas tem começo, meio e fim, e se o tempo não for muito bem administrado, o próximo capítulo da novela vai lhe obrigar a fazer uma retrospectiva tão grande que o assunto vai ficar chato, ou você vai deixar de fazer essa retrospectiva e os alunos vão se sentir perdidos. Alguns assuntos demandam mais tempo para serem trabalhados e é preciso de um bom roteiro para que seu filme sobreviva aos comerciais;
  7. visual clean: sim, sua aula e sua lousa têm que ser "clean", limpinhas. Aulas cheias de detalhes desnecessários e lousas inlegiveis contribuem uma barbaridade para que qualquer assunto se torne "difícil". Inclua nesse "clean" o fato de que os alunos não precisam que você prove para eles que sabe tudo sobre o assunto, apenas que você os ajude a saber um pouco também. Enfim, não seja exibido nem relaxado;
  8. luzes, câmera e ação!: você é o showman (ou showgirl) e sua aula é o espetáculo, o assunto é só o coadjuvante nessa trama. Se você fizer bem feito nem vão perceber que era tão difícil assim!

Hummm... Fui!

5 comentários:

  1. profbiacury@yahoo.com.br17/12/2008 10:15

    Oi JC!!

    Realmente todos os ingredientes estão aí, mas é uma pena que na hora de oferecer o que preparamos com todo cuidado nos falte "clientes" com desejo de saborear nossa receita.
    Esta é o nosso desafio.

    Bia

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  2. Eita, garoto, vc foi o verdadeiro showman com essa sua análise, gostei muito e espero, sinceramente, ser um instrumento facilitador do aprendizado.

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  3. José Carlos, meu rapaz. Que artigo interessante. Concordo com você. Vou fazer um comentário e uma pergunta. 1- Comentário: eu sou professor de História e tenho feito uma coisa simples que está dando resultado. Trata-se de pedir ao aluno que traga material (revista, sites, etc.)sobre o conteúdo que vamos estudar. A aula fica tão dinâmica que eles não param de interagir e perguntar o tempo todo. Isso porque a aula gira em torno de algo que eles trouxeram. Isso é socializar o conhecimento! (continua...)

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  4. (continuação...) 2-Pergunta: Quando você fala do uso da lousa, considera-se um aparato de tecnologia, certo? Antiquada, mas tecnologia... Acontece que nunca encontrei uma referência que ensine ao professor usar ou preencher o quadro de uma forma mais eficiente ou didática. Você conhece? Um abraço

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  5. Prof. Michel, você tem razão, não é fácil achar por aí material ensinando a usar a lousa. Então vamos combinar assim: eu vou publicar algo a respeito e depois você comenta, outros comentam e no final podemos chegar a uma "manual básico", o que você acha?

    Obrigado pelo comentário.
    Abraço,
    JC

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